Rita Fabiana

Published on Dec 12, 2012 | Filed under: TEXTS |

Author: Rita Fabiana

Publication: Les Voisins (DVD + booklet) NOT PUBLISHED

Exhibition: Les Voisins #3 (Ermida de Belém)

“A intervenção Les Voisins de Ricardo Jacinto, apresentada na Culturgest do Porto, foi inicialmente pensada e projectada em 2006 para o palacete urbano oitocentista, em Paris, que alberga o Centro Cultural Gulbenkian nessa cidade. Integrava então um projecto de exposições programadas para aquele espaço – 51 avenue d’Iéna –, que recebera já as intervenções de Gabriela Albergaria e Leonor Antunes. O projecto pretendia trabalhar esse lugar-contexto específico, histórico, de múltiplos usos e memórias, localizado numa arquitectura monumental, fortemente regulada por um programa arquitectónico que racionaliza e hierarquiza a distribuição dos espaços e a circulação entre estes.

Les Voisins inscreve-se num conjunto de práticas artísticas site-specific cuja noção de lugar, mais do que fenomenológica (a sua relação com as condições materiais do lugar, historicamente ligada ao minimalismo), deve ser entendida enquanto “lugar funcional” ou “discursivo” , gerador de uma rede de relações temporais, espaciais e sociais. Nesse sentido, convive com a mobilidade (ou o nomadismo), a impermanência e a transitoriedade. Ainda que Les Voisins incorpore coordenadas espaciais, e que estas surjam alteradas na Culturgest do Porto, o seu deslocamento não interfere na estrutura discursiva da instalação, ampliando sim as suas possibilidades funcionais, relacionais e ficcionais .

Les Voisins parte de uma ideia de fractura. Uma fractura que, no palacete parisiense, era organizada espacialmente, remetendo-nos para um lugar de coabitações, geradas pela duplicação de circuitos diferenciados, internos à casa: um circuito público e um privado e doméstico, palcos de distintas socializações (distintos modos de habitar em e de habitar com…). Para esta estrutura contentora, um espaço simbólico de valor, Ricardo Jacinto propôs simultaneamente um dentro e um fora. Projectou para a casa, a partir de uma possível exterioridade ou alteridade: os vizinhos.

Esse outro que nos é familiar ainda que estranho, próximo mas apartado por muros que deixam passar fragmentos de vivências (narrativas), toma corpo em sons eruptivos, descontínuos, desfasados, (in)desejáveis. Ainda que a condição primeira de vizinhança seja a partilha de um espaço comum, esse outro constitui-se em nós como um acontecimento sonoro. A vizinhança apresenta-se assim como uma comunidade de ouvintes reunidos no lugar virtual dos sons e das sensações sem retorno, do aleatório, das associações livres. Mas ser vizinho é uma condição cambiante e reversiva: ser em si mesmo o vizinho de um outro, multiplicável.

O outro surge como o lugar central de toda a construção de Les Voisins, atravessando e adensando-se em cada uma das intervenções que constituem a instalação. Atravessa igualmente as condições de produção, de apresentação e recepção da obra, declinando-se nas questões de autoria e colaboração artística, na exposição enquanto dispositivo relacional e na implicação do espectador enquanto observador participante.

A instalação reunia um conjunto de intervenções-objectos, desenhados para ocupar e activar um espaço arquitectónico, e uma performance (objecto musical) que aí aconteceu num único momento da sua apresentação pública (a inauguração da exposição), e que trouxe a Les Voisins o projecto colaborativo Cacto (Ricardo Jacinto e Nuno Torres).

Estas intervenções – medusa, projéctil, espanta espíritos e atacadores – e a performance ensaio são simultaneamente figuras de mediação com o espaço (duplicam tanto o percurso narrativo do próprio espaço quanto o seu potencial cénico) e figuras de mediação com o outro, colocando o espectador no lugar de uma acção. São também fragmentos de uma construção ficcional, organizada em torno da peça medusa e da metáfora fundadora do mito de Medusa: a interdição do olhar . (…)”