Miguel Caissotti

Published on Dec 12, 2012 | Filed under: TEXTS |

Author: Miguel Caissotti

Publication: www.artecapital.net

Exhibition: Earworm / Culturgest, Lisbon 2008


“Earworm”, o título do projecto patente até 11 de Maio na Galeria 1 da Culturgest, em Lisboa, é desvendado ao longo de todo o espaço, sobrepondo-se essa condição de construção de significação perceptiva (individualizada em cada visitante) à definição de James Kellaris, que encontramos em texto de parede, logo na câmara de entrada para a exposição. “Earworm”, das sequências melódicas que retemos em memória de uma composição maior, de uma canção de que apenas lembramos (ou de que não nos conseguimos abstrair) um refrão ou outro pequeno trecho.

Todo o espaço (entenda-se “expositivo”) em que Ricardo Jacinto opera encontra-se em conexão, seja pela propagação de sons (ou a sua representação gráfica ou a sua síntese electrónica), seja pela complementaridade visual ou ainda pela reconfiguração conceptual de pressupostos anteriormente apresentados (no mesmo espaço expositivo) sob um outro e determinado contexto ou enunciado de problema.

Para “Earworm” foram chamados momentos não necessariamente cronológicos mas específicos, ainda assim, de etapas do percurso criativo do artista. Alguns dos trabalhos apresentados denotam as exigências e competências técnicas particulares que Ricardo Jacinto foi adquirindo – tanto na escultura, como na arquitectura e na música – e as características inerentes a esses campos terão desencadeado, certamente, uma interessante reflexão sobre a sua complexidade de instalação. Com uma concepção irrepreensível, também a lógica de instalação dos trabalhos apresentados incorpora essa abertura e capacidade de contaminação e renovação que o artista tem cultivado para o seu processo criativo e para os seus trabalhos.

Assim, e integrando no espaço da Culturgest de Lisboa a continuação do projecto “Parque” (cujas primeiras apresentações públicas remontam a 2001), é também o conjunto de trabalhos em exposição que se renova em cada uma das encenações performativas de “Peça de embalar” (22 e 24 de Fevereiro), “Os” (29 e 30 de Março) e “Atraso” (19 e 20 de Abril). Para além da assistência aos momentos de interpretação, o público pode posteriormente visitar o espaço – dispositivo performativo sem actores-músicos, numa estratégia continuada de compromisso entre tempo e espaço, compromisso esse iniciado na primeira câmara da galeria 1, com a definição de “Earworm” no texto de parede. A contaminação de sons e outras referências (também a propagação de efeitos estroboscópicos) prolonga-se pelas várias salas e funde-se em interpretações e olhares novos para peças antigas. Podemos accionar alguns dispositivos que personalizam a experiência de enaltecimento desta relação e, em alguns casos (como por exemplo, “Parque Noir”, a que acedemos após atravessar o espaço vazio das performances), a estratégia do artista para nos tornar cúmplices desse compromisso entre tempo-memória (do espaço de acontecimento em vestígio) e tempo da nossa presença-passagem, é de uma incontornável eficácia. Também “Cânone e Contrafuga” acciona no próprio recinto expositivo o que une tempos e espaços distintos, unificando-os.

A evolução de “Parque” tem permitido ao artista constituir uma plataforma de colaborações regulares com outros criadores provenientes das artes visuais e da música. Mérito de um projecto que se tem renovado aquando da adaptação a novas condições espaciais e que, incorporando a experiência das apresentações anteriores, tem sabido manter actualizados os pressupostos de experimentação performativa iniciais (apresentações esgotadas e sessões suplementares para um projecto com tanto tempo de existência comprovam-no). “Extras e Demonstrações” estabelece os últimos pontos de conexão de uma exposição em que Ricardo Jacinto reordena e reactualiza pontos aparentemente isolados do seu trabalho, privilegiando para resultado final o seu efeito combinatório e reticular, em detrimento da preservação do valor isolado de cada trabalho. “Earworm” é uma exposição a que apetece voltar (…) Ou de onde apetece partir, em direcção a uma outra, também de Ricardo Jacinto (“Les Voisins”), patente na Culturgest do Porto, até 19 de Abril.

Porque (e só depois percebemos), “Earworm” é também um aviso: Fica-nos em memória, sem que dela nos consigamos abstrair. Para lá voltarmos depois.