Rita Xavier Monteiro

Published on May 23, 2013 | Filed under: TEXTS |

(Res)sonâncias Vitais [Eye Height]

“A alma é um acorde; a dissonância, a sua doença.”
Pitagóricos

A paisagem visual que recorta o olhar corresponde à paisagem sonora que em Eye Height se inicia.

Os músicos, os intérpretes e o ambiente aguardam o silêncio inaugural. Uma aura é criada depois do público ocupar lateralmente os lugares dentro do palco do auditório de Serralves.

O ambiente é intimista. No centro um outro palco sobre o palco. Protagonista da cena, um feixe de luz salienta a madeira de carvalho polido de que é construído, a partir de nove elementos conjugados que formam nove ondas. O palco é lugar de produção coreográfica e musical. E ele é também instrumento musical. Uma caixa de ressonância.

Eye Height é o segundo espetáculo do ciclo Matérias Vitais, programado por Cristina Grande e Pedro Rocha. É um projeto colaborativo entre a coreógrafa e investigadora Beatriz Cantinho e o compositor, músico, artista plástico e arquiteto Ricardo Jacinto. Importa a enunciação das várias competências dos dois criadores porque neste espetáculo elas estão plasmadas de um modo tão evidente quanto coeso e fluído. O objeto podia funcionar como uma peça escultórica que se relaciona e emerge do título e da obra em exposição de Alberto Carneiro – Arte Vida / Vida Arte – Revelações de Energias e Movimentos da Matéria – o mote para este ciclo de artes performativas. Enquanto palco, chão, ele aparece com uma arquitetura orgânica pela irregularidade e aconchego que transmite aos corpos que o irão habitar. Eye Height também originou uma vídeo-instalação que se torna a dimensão cinematográfica do projeto, exposta em alguns espaços e galerias[1]. Este outro objeto de registo pretendeu desenvolver a atenção perceptiva do espetador mediado através de três planos de vista síncrones expostos, evidenciando a imersão no palco. A pesquisa em torno da apreensão visual estética e na performance é, de resto, o interesse de Beatriz Cantinho.

Ao espetáculo precedeu um workshop com os bailarinos convidados Vera Santos, João Martins e Luís Guerra e os músicos Susana Santos Silva e João Pais Filipe, cujo resultado igualmente se exibiu. Além disso, realizou-se um workshop para jovens, cumprindo a dupla função pedagógica de experimentação musical e do movimento.

Os músicos localizam-se nas extremidades daquela estrutura quadrada, a par dos espetadores. Ricardo Jacinto está no violoncelo e Nuno Torres no saxofone alto, instrumentos que exploram pela improvisação livre, ou procura de sonoridades que se pretendem contínuas, orgânicas. Às vezes lembram uma espécie de rumor líquido, quase murmúrio seminal, embrionário, intra-uterino. Ouvem-se as cerdas do arco que deslizam a madeira do viloncelo, o sopro no metal do saxofone abafado… Outras vezes, quebram notas musicais que surgem mais melodiosas. Trata-se, ao mesmo tempo, de buscar formas de relação com o instrumento que habilmente dominam, conectando-se com aquele objeto cenográfico maior – o palco – que ali, visualmente, se impõe.

O diálogo com o instrumento-palco implica este ser ocupado, ser tocado. São os corpos dos bailarinos que, sempre numa postura horizontal, o animam. Beatriz Cantinho, Filipe Jácome e Francesca Bertozzi aconchegam-se e rastejam nas ondas do palco até voltarem a abandoná-lo, uma e outra vez, sentando-se entre o público. A coreografica é também improvisada, os corpos fechados sobre si próprios, introspetivos; embora se sinta uma notação de orientação conjunta em determinados momentos, sobretudo no final. É movimento resvalante e sonoro. A fricção dos corpos facilitada pela borracha dos figurinos negros aquecem o som da caixa. São as pancadas secas na madeira que o fazem ecoar pelo espaço. Em posturas embrionárias e gestos de percursão, a acústica é convocada de um modo quase cósmico que me faz pensar nos pitagóricos.

Nas descobertas dos intervalos musicais, os pitagóricos pensaram a harmonia como uma bela proporção matemática traçada pela movimentação planetária. Também por baixo do palco-instrumento as cordas afinadas são excitadas pela movimentação dos intérpretes e vibram por simpatia. A vibração emana e estende-se aos corpos que estão em contacto. Imagino que se possa assemelhar a uma massagem sonora. Entre os harmónicos dos instrumentos e o eco daquele dispositivo parece que se busca essa espécie de ruído das esferas, do cosmos. Uma música pouco definível, mas permanente, um manto sonoro.

Há uma sensação de desiquilíbrio sonoro, não sei se propositada, entre a ressonância subtil e levemente amplificada do palco e a amplificação dos instrumentos.

O blackout anuncia o desfecho. O silêncio e a escuridão finalizam esta paisagem à altura do olhar – Eye Height – um poderoso trabalho em torno do corpo, dos objetos, da sua alma e seus acordes vitais.